O que o Salada pensa sobre o Mais Médicos

“Olá Meire!

Não poderia deixar de comentar sobre:
Médicos cubanos hostilizados no Ceará:
http://br.noticias.yahoo.com/blogs/jornalismo-wando/m%C3%A9dicos-brasileiros-o-orgulho-branco-da-na%C3%A7%C3%A3o-140048876.html#more-id

Agora é assim que a solidariedade é tratada?
Absolutamente repugnante tal escárnio.
Sabe o que é coisa se rico e bem nascido?
Educação, respeito, bons costumes
Esse tipo de atitude mostra o quanto eles tem o espírito da pobreza empregado na alma.
Mostra quem realmente não tem educação, que o “frequentar faculdade” não serviu de nada… quem DE FATO é o pobre e escravo” (Roberto)

Obs – O comentário racista que ilustra o link foi feito por uma jornalista http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/08/jornalista-diz-que-medicas-cubanas-parecem-empregadas-domesticas.html

Aqui registro que médicos que agem desta forma não só não me representam como me envergonham. Confesso que prefiro acreditar que notícia é falsa ou foi redesenhada, mas vou usá-la como mote para este post mesmo assim.

O fato do Brasil ter resolvido aplicar um curativo frouxo à extensa úlcera que se tornou a saúde do nosso país não autoriza NINGUÉM a hostilizar os médicos que integram o Programa Mais Médicos. Excetuando-se os pacientes, os menos culpados e os mais bem intencionados nesta história toda são eles.

E saibam os meus colegas que o médico brasileiro é apenas mais um profissional de saúde com autoestima baixa e que se sente enforcado quando outro programa eleitoreiro e de caráter temporário surge enquanto o que já deveria ter sido feito há décadas continua ficando para trás.

Enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, farmacêuticos/bioquímicos, dentistas e tantos outros profissionais também carecem de um plano de carreira sólido e da criação de equipes realmente multidisciplinares para cuidar de nosso povo, mas nem por isto eles estavam neste mesmo aeroporto vomitando xenofobia, que é incontáveis vezes pior que a xenofilia.

A xenofilia que floresceu nas redes sociais pelo menos é fruto do inconsciente coletivo que coloca o médico com um ser angelical e que deriva do fato do brasileiro não perder sua esperança. O povo brasileiro vê o médico de fora como uma luz para suas mazelas. Chega a ser algo inocente e bonito. Já a xenofobia, além de ser crime, está vindo de pessoas que supostamente deveriam ter um senso de realidade mais apurado, ora, vem de gente que pretende cuidar de gente.

Sabemos que o Programa Mais Médicos não oferece o que o Brasil precisa, mas é o que nossos governantes estão dispostos a fazer. O povo dos rincões precisa de médicos e as vagas disponíveis não foram preenchidas por nós, isto é fato. Ainda que o Programa venha sendo visto como uma medida eleitoreira que só empurra os problemas reais para debaixo do tapete, é preciso pensar primeiro no povo e manter paralelamente as mesmas exigências de melhoras do SUS que já fazemos há décadas, um erro não justifica outro.Sabemos que não se faz medicina só com médicos e sabemos porque a interiorização não ocorreu. A nossa indignação pode e deve ser demonstrada, mas não como se fôssemos crianças de quatro anos de idade chutando o coleguinha porque ele ganhou um pirulito mais bonito.

sarcoma

Hoje atendi uma mulher jovem que perdeu o seu membro superior dominante inteiro. Ele foi desarticulado e amputado ao nível do ombro em razão de um rabdomiossarcoma. O diagnóstico foi tardio porque ela esperou meses até conseguir completar a investigação, mesmo sendo atendida por bons médicos na Unidade Básica. Nunca teve acesso a um terapeuta ocupacional que a auxiliasse na mudança de lateralidade porque não há TO na equipe. Tem dificuldades para escovar os dentes. Não consegue fechar sua calça jeans sem ajuda da vizinha. Este tipo de situação é visto por mim diariamente.

Recém atendi um menino hemofílico com lesões graves nos dois joellhos, tão  novinho e já restrito a uma cadeira de rodas e com as coxas atrofiadas. Não frequenta a escola porque teria que ir de taxi, já que não existe transporte público no povoado onde reside. Nunca teve acesso a um tratamento digno, nunca viu um fisioterapeuta em sua frente, apesar de também ser atendido por bons médicos na Unidade Básica de Saúde. Há alguns dias um menino com osteogenesis imperfecta que foi diagnosticada pelo ‘médico do postinho’ fraturou a tíbia ao atravessar a rua em virtude da ausência de acessibilidade para pessoas com déficit de mobilidade. Ele ingressou ao meu gabinete com aquele rosto de criança amadurecida pelo sofrimento e conformismo. Sustentando o choro disse: tia, quebrei a perna de novo, olha aqui…

Os grandes problemas, o paciente renal crônico que depende de hemodiálise, o hepatopata que complica, a mulher que não tem acesso a uma mamografia para sobreviver ao câncer que irá corroer os últimos dias da sua vida e boa parte das pessoas que passam por meu gabinete não tiveram suas vidas melhoradas ou poupadas pela presença de um médico na Unidade de Saúde. Muitas continuarão morrendo dentro das ambulâncias ou sobrevivendo às custas de tratamentos na capital, muitos deles feitos por favor que um médico faz ao outro pois não é raro que nos comuniquemos pedindo que colega faça um ‘encaixe’, que invente uma vaga, que arrume mais uma maca. A gente chora por dentro, chora por fora. O paciente realmente grave continuará tendo apenas ambulância como alternativa porque o médico não consegue fazer nada por ele na Unidade Básica (além de confortá-lo). Isso quando a ambulância tem gasolina.

Mas a presença de um médico em uma comunidade pode minimizar boa parte dos problemas comuns na nossa população, pode garantir o funcionamento de um programa de controle de hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade, alcoolismo, talvez até de drogadição, fora os programas de Hanseníase e Tuberculose, que são brilhantemente aplicados por nossa enfermagem. Pode auxiliar em programas de controle de natalidade e de controle de endemias que vergonhosamente ainda assolam nossa população carente. Para isto não precisamos de equipamentos sofisticados, precisamos de profissionais trabalhando em conjunto e de agentes de saúde bem treinados e motivados. Mesmo que vidas não sejam extraordinariamente poupadas pela presença de Mais Médicos, o povo pelo menos poderá ter sua qualidade de vida melhorada e se houver uma educação continuada, dentro de uma década várias doenças podem declinar e a taxa de natalidade, que deve cair, pode cair. Eu tenho esperança sim.

Não tenho dúvidas de que dentre os profissionais que estão desembarcando no Brasil muitos são tecnicamente capazes e têm o mesmo amor que tive com meus pacientes enquanto assistente, mas infelizmente também não tenho dúvidas de que muitos deles são incompetentes e podem gerar danos severos à nossa população porque infelizmente há maus médicos sim, sejam eles brasileiros ou estrangeiros.

OS ERROS DO MAIS MÉDICOS

O primeiro grande erro do Mais Médicos reside no fato de contratar médicos para atuarem como servidores públicos sem submetê-los a um Concurso mais rígido. Até traficante internacional de drogas e médico processado por exercício ilegal da Medicina se inscreveram. O segundo grande erro é tratar os médicos como se fossem estudantes, fornecendo-lhes uma bolsa que não prevê direitos trabalhistas que merecem, como salário-maternidade, isso é uma injustiça que precisa ser revista. E o terceiro é contratar médicos sem Diploma válido no Brasil, o que complica a vida do paciente que for vítima de erro médico. E quem irá complementar o salário do médico que ficar doente?

Vamos por partes, vou usar o meu exemplo para ilustrar estes pontos de vista.

Sou Servidora Pública e para assumir meu cargo precisei ser portadora de um Diploma de Medicina válido no Brasil, ter Residência Médica em Universidade reconhecida pelo MEC, portar um Título de Especialista reconhecido pela AMB e ser devidamente inscrita em meu Conselho de Classe. Fui submetida a uma rigorosa seleção através de Concurso Público Federal em duas etapas, tendo sido a segunda após realização de Curso de Formação. Antes da posse apresentei não só comprovações de sanidade física e mental quanto de negatividade de antecedentes criminais e após tomar posse cursei pós-Graduação em Direito para atuar tanto em demandas administrativas quanto Judiciais e no decorrer do primeiro ano de atividade passei a exercer dedicação exclusiva. Permaneci por vários anos interiorizada e só recentemente me encontro trabalhando em uma cidade mais próxima de Natal. Já me encontro aprovada em Concurso de Remoção no entanto só serei lotada na cidade onde moro quando houver novos médicos para me substituirem, o que acho muito justo.  No SUS também deveria ser assim, médicos bem selecionados, bem formados e mantidos no interior pela necessidade do povo. Alguém discorda?

Antes de ser legista fui assistente por muitos anos. Se algum paciente tivesse sido vítima de um erro de minha parte ele teria tido o CFM para acolher a denúncia e eu teria sido julgada de maneira extremamente célere por quem sabe julgar erro médico. Como ficou bem claro dentro de toda esta polêmica, o CFM não acredita que todos os médicos sejam indivíduos responsáveis e capazes e tem como obrigação retirar de circulação os indivíduos imperitos, negligentes ou imprudentes porque não vê médico como se ele fosse um deus acima de críticas. Todo médico treme da cabeça aos pés quando recebe algum comunicado do CFM, quem passa por algum tipo de investigação até adoece, fica hipertenso, é um estresse gigante. Para nós o CFM é como aquele pai rígido e que pune sem passar a mão na cabeça, que pune o ruim para manter os outros sob vigilância e para manter sua própria credibilidade. Sou testemunha das cassações e outras punições impostas aos médicos brasileiros porque tenho a honra de contar com um Conselheiro Federal em minha família. Se o CFM visse o médico como um deus infalível não defenderia prova nenhuma. Todo bom médico sabe que há médicos ruins que precisam ser ‘descartados’. Pena que o povo não alcance este detalhe porque romantiza o médico estrangeiro, acha que todos são perfeitos, competentes e bem formados. Não são, porque em todo local do Planeta há médicos que não deveriam ter o direito de trabalhar na rede pública.

O paciente que busca a rede pública não tem alternativa. O paciente que paga, tem. Se o médico for ruim ele muda de médico. O paciente pobre deve ser muito mais protegido pelas entidades médicas.

Da mesma forma que os médicos estrangeiros não são culpados pela forma com que os profissionais de saúde brasileiros e seus pacientes vêm sendo tratados nas últimas décadas, também não são culpados pela irresponsabilidade do Brasil em contratá-los sem que seus diplomas sejam revalidados ou por terem recebido o privilégio de atuar no setor público sem concurso, o que você que me lê não teria. Por que recebê-los mal então?

E como fica o erro médico para  um paciente atendido por um médico sem Diploma válido no Brasil e sem registro no CRM?

Ele não terá o CFM ao seu favor e precisará acionar a Justiça e aguardar toda a morosidade do sistema judiciário Brasileiro (que embora seja formado por profissionais muito competentes não conta com servidores em número suficiente para analisar as demandas com rapidez)? Nos parece que a resposta é sim. Médico vinculado ao CFM é médico mais rapidamente punível e isto é um ponto muito negativo do Mais Médicos e que em minha opinião deveria ser revisto.

Outro ponto controverso do programa é o aluguel de médicos Cubanos, o que gera preocupações específicas para humanistas como eu. Como pode, em solo brasileiro, um trabalhador receber menos que outro quando executa o mesmo trabalho e tem mesmo gestor? Como pode um trabalhador estrangeiro trabalhando no Brasil por três anos não poder receber sua família em casa enquanto os outros estrangeiros podem? Se Cuba cobra caro pelo aluguel do médico e embolsa boa parte do que ele deveria receber (se um médico adoecer, Cuba o recolhe e manda outro no lugar, do mesmo jeito que uma empresa faz com objetos alugados) temos que aceitar isso de bom grado só porque os Cubanos estão acostumados a ser tratados como produto de exportação? Por que os Cubanos não podem trabalhar aqui como os outros estrangeiros, como pessoa física?

Por fim, dou boas vindas a todos os médicos do Programa, espero que pelo menos em boa parte das cidades possa existir uma boa integração entre médicos e outros profissionais. Desejo que daqui a três anos os colegas entrangeiros sejam substituídos por médicos com plano de carreira e que não precisem ser submetidos ao danoso esquema vigente, onde o principal direito trabalhista é calote e a enoxeração sem indenização de qualquer natureza. Desejo ainda que os estrangeiros que revalidarem seus diplomas encontrem boa acolhida onde escolherem trabalhar após a interrupção de seus contratos temporários e que os que não revalidarem seu diploma voltem para os seus países orgulhosos pelo trabalho aqui prestado.

O povo merece  ser servido por profissionais de saúde selecionados como eu fui selecionada, incluindo os de nível médio, que também necessitam de carreira organizada e segura. O trabalho dos agentes de saúde é de uma importância sem limites, estes meninos e meninas levam muito conforto e educação em saúde para as pessoas e são extremamente mal remunerados, isto sempre me revolta quando lido com eles na Reabilitação Profissional. A gente precisa muito deles, mas são agentes invisíveis porque não contam com instituições fortes que os defendam.

Gente que lida com gente precisa ser bem cuidada. Se o Brasil fosse mais inteligente trataria e remuneraria muito bem quem lida com saúde, segurança, educação e transporte pois o povo só teria a ganhar. Mas como sou uma otimista incorrigível, sigo acreditando.

Beijo,

Meire

@meire_g

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63 thoughts on “O que o Salada pensa sobre o Mais Médicos

  1. Oi Meire tenho melasma no buço e achei seu blog procurando por tratamento, desculpa se já escreveu sobre isso mas não achei! Como fazer nessa área?? ou se você tivesse o que você faria? Vi um vídeo da Vitoria Ceridono e ela disse que tem melasma no buço, até chamou de Salvador Dali, mas ela não contou o que tá usando!

    • Ana,
      Vou pensar melhor na resposta do que eu faria se tivesse melasma nesta área e prometo que faço um post assim que possível. Seria muito assunto para uma resposta, e respondo do tablet em horário de almoço e é péssimo pra digitar. bj

  2. De repente, a única coisa que falta de verdade – e muito! – em nosso país, é a vontade política. Mas é mais fácil continuar nesta tentativa miserável de desviar o foco das atenções do descalabro completo com a saúde pública para os médicos – uma desfaçatez que poucas vezes me indignou tanto.
    O que me incomoda em tudo que tenho lido por aí é isso… essa tentativa de desviar o foco para os médicos, que agora viraram vilões. Como se a urgência na área de saúde não fosse uma urgência que já se arrasta há décadas… e como se trazer médicos, apenas, fosse resolver os problemas.
    http://dozeeum.blogspot.com.br/2013/08/de-repente-os-medicos.html

    • Rê,
      Enquanto isso o Ministro da Saúde nunca responde por qual motivo ainda não existiu um concurso para fixar o médico e outros profissionais de saúde no interior. Beijo!

  3. Adorei o seu texto!! Sou medica do PSF de Campinas,concursada , mas sem plano de carreira.Concordo com quase tudo o que você disse, com exceção do ” revalida” – se tivesse que ser obrigatório para os estrangeiros, teria que ser para os brasileiros tambem,tem muito brasileiro que nao consegue passar no exame!!
    Uma das coisas que me deixa mais triste e ouvir um paciente com entorse ou fratura grave dizer ” ha seis meses ainda nao fui chamado pra fisioterapia” , nao sou ortopedista mas como ja sofri trauma sei por experiência própria :se nao faz fisio , o tecido fica com fibrose e ganha uma pseudoartrose pro resto da vida,…
    Sei que tem medicos ruins tambem,eu mesma ja fui mal atendida,( no caso, por ortopedista pro qual paguei particular e nao soube conduzir um entorse se tornozelo grau 2, sequer pediu raio X, quando sei que era necessário), meus pais ja foram mal atendidos, nem caberia contar a historia aqui,Mas tambem ja fui muito bem atendida,por outros que sao verdwdeiros anjosGeneralizações são ruins, mas entendo porque eu mesmo sendo medica, fico insegura de procurar um profissional que piore o meu estado, como aconteceu com o ortopedista em 2011.Queria ter a segurança de poder ir numa consulta e me sentir segura,saber que serei bem cuidada, mas dependendo da especialidade nao confio em qualquer um e so vou em quem conheço bem ou com uma boa indicação
    Entao, entendo em parte a revolta dos brasileiros contra os medicos, porque no púbico você nao pode escolher,no particular,ainda vc pode trocar…
    Eu fico mais temerosa com a obrigatoriedade ou nao de uma proficiência em português,Como você atendeu em posto de saude, você sabe bem as expressões idiomáticas da parte pobre da população ” dor no pe da barriga” , ” dor nas ancas” , ” obrar” entre outras.Sera que os cubanos( ou de qualquer outra nacionalidade) irao entender bem sem fazer confusão?eu mesma sendo brasileira as vezes preciso pedir pros pacientes mostrarem com a mão, indicarem o que sentem, pois tem expressões idiomáticas que as vezes nao entendo e tenho que pedir pra repetir!!!
    Nao tenho tanta preocupação com ” erros medicos ” dos cubanos, os nossos medicos tambem erram e nao acho que cubanos errarão mais nem menos,nao me imagino recebendo um profissional e ja temendo por um suspoto erro dele que nem aconteceu ainda!!!
    Mas fora essas pequenas ressalvas que coloquei, Meire,amei seu texto e você esta de parabens!! Os que vaiaram os cubanos no aeroporto tambem nao me representam, tenho vergonha de dizer que sou colega deles,
    Você sintetizou quase tudo o que eu queria dizer!!
    Beijo,se quiser fazer contato me procure pelo meu blog,;))

    • Oi Maria Valéria,

      O Revalida é uma prova para tornar legal um Diploma emitido no exterior, por isso não é obrigatório para quem termina qualquer curso aqui e nem deve ser porque não há por que se tornar legal o que já é legal. Se um estudante estrangeiro terminar Medicina aqui ele já conta com diploma legal e também não precisa revalidar o que já é válido, por ter estudado em escola reconhecida pelo MEC, ou seja, a prova não é só para estrangeiros e nem todo estrangeiro precisa fazer. Isso ocorre com Medicina, Engenharia, Direito e qualquer outro curso. Meu marido fez Engenharia na Austrália e o Diploma dele não é válido aqui se não for revalidado, esta polêmica só dá a entender que isso é só com médicos estrangeiros, mas não é. Uma coisa é revalidar o diploma, o que deve ser feito só para quem não tem diploma válido e outra coisa é prestar uma prova para comprovar conhecimentos e adquirir condição de servidor público ou para quaisquer outros fins. São duas questões bastante distintas e que a mídia fez questão de manter como idênticas, não sei se por desconhecimento ou por interesse em gerar mais polêmica.

      Como existem médicos bons e ruins, são estas ferramentas as necessárias para triagem e proteção do povo porque erro médico não é atributo de um médico de nacionalidade X, ocorre em todo Planeta, com ou sem prova. Mas com provas pelo menos os menos preparados tendem a ficar para trás.

      Se houver um trabalho de equipe realmente bem feito a barreira da língua pode ser quebrada facilmente, pois a enfermagem tem total preparo para ajudar o médico estrangeiro que tem conhecimentos em língua portuguesa com a nomina, traduzindo o que o paciente falou em português mais claro. Por isso minha preocupação maior é com a capacidade técnica do profissional, não só do que vem de fora mas do daquele que poderia ser concursado em carreira de Estado e dar melhor atendimento à população, sendo fixado no interior com um bom salário e segurança contra exonerações súbitas feitas por prefeitos e calotes de toda natureza. Tomo pela minha carreira, concurso que nivela por cima, reuniões técnicas mensais, cobrança de ponto/produtividade e auditoria em cima. Ai de mim se fizer besteira. E o salário não é alto, mas a carreira existe, cobra, controla.

      Como legista me deparo diariamente com pessoas sequeladas por falta de fisio, fono, TO. Mudanças de lateralidade que deveriam ser orientadas até pelo médico da UBS de maneira diletante, o que é sempre possível, findam negligenciadas porque ele não tem preparo para reabilitação (não é culpa do médico). Pacientes sem acesso a psicólogos, sem orientação farmacêutica adequada e expostos a interações medicamentosas que poderiam ter sido evitadas (também não é culpa dos farmacêuticos), fora pacientes com dor crônica/neuropática erroneamente medicados com AINES ou CO de depósito, mesmo os hipertensos, diabéticos e pessoas com osteoporose, o que é de chorar pois não existe um programa para controle de uma das mais importantes causas de incapacidade laborativa no país.

      Isso tudo poderia ser minimizado com uma carreira orquestrada para todos os profissionais e com um acesso menos difícil às unidades secundárias e terciárias, bem como com prontuário eletrônico unificado.

      Posso dizer isso porque as falhas de todo um sistema (mais uma vez, não estou culpando profissionais nem afirmando que erro é generalizado) acabam no nosso gabinete ou na mesa fria de outros legistas, fora o que tenho o desprazer de ver na Justiça quando dou pareceres e com as cópias de prontuários que solicito todos os dias, permeadas de anotações praticamente inexistentes e muitas vezes ilegíveis porque o médico é obrigado a atender um exército por dia.

      O Brasil pode fazer isso e tem médicos excelentes em todo país que certamente estarão dispostos a dar muito mais do que dão ou do que conseguem dar. Bj!!

      • Obrigada pela resposta!! Realmente nao temos preparo em reabilitação,e o profissional que tem nao e contratado ( fisioterapeuta) ou quanto tem, e um so pra dar conta de tudo…
        Sei dar algumas orientações básicas para entorse de tornozelo graus 1 /2 porque ja sofri mais de um, entao ja to craque ( rsrsrsr!),mas de resto…ja ate liguei pro meu fisio particular , pedindo pra discutir um caso , pra ele me dar algumas orientações mínimas, porque ate a vaga da fisio chegar…triste, ne?? Mas a gente segue lutando :)
        Bjs

      • Maria Valéria, triste mesmo. O médico tem que se virar em 1000. O trabalho em equipe é que faz o médico se tornar melhor. Posso dizer que parte do que sei devo a isso, tanto do trabalho em equipe do SUS quanto durante o período em que fiz consultório. Todos saem ganhando. Beijo!

  4. Meire, já li e reli seu texto e gostei muito da sua abordagem ampla e lúcida. Vc sempre vê os vários ângulos da questão. Tinha lido bastante e assistido a vários vídeos sobre esse assunto (sou muito curiosa), mas com certeza a sua abordagem foi a que mais me acrescentou. Acho linda a sua generosidade em compartilhar seus pontos de vista conosco.
    Um beijo!

  5. Excelente texto, o que expôs mais claramente aspectos positivos e negativos sobre o tema. Vou repassar para várias pessoas. Como alguém que já desejou muito exercer medicina e volta e meia tem um arroubo e forte sentimento em relação à carreira (meu primeiro contato com você, há uns 4 anos, foi perguntando sobre a Medicina), penso muito no sofrimento dos médicos que estão chegando nesses locais sem recursos básicos. Acho que eu sofreria muito e não aguentaria. Em toda essa polêmica, não escuto falarem sobre a saúde mental dos profissionais, sejam brasileiros ou estrangeiros. Tem que ter realmente uma resiliência alta se for uma pessoa sensível aos outros e que se importe.

    • Munique, tem mesmo. O índice de suicídio entre médicos e estudantes de Medicina é consideravelmente alto. Muitos médicos que são considerados ‘desumanos’ porque mal olham para o paciente às vezes são os mais sensíveis e os que mais sofrem e tentam colocar esta máscara de fortes. Como sempre digo, só médicos conhecem médicos. Por isto somos a favor de provas, por isso somos a favor de um CFM ativo e que elimina maus profissionais e que defendem os bons, que muitas vezes são atacados por quem não sabe o que é certo ou errado em Medicina. Beijo!

  6. Oi Meire, eu estava aqui lendo e pensando se devia comentar mas decidi que sim.
    Então, eu acho que como em todas as profissões há bons e maus profissionais e isso é assim em todo o mundo. Relativamente aos médicos eu só conheço a realidade de Portugal, e a realidade cá que eu conheço e que existe é que existem muitas, mas muitas pessoas que vão para essa profissão não por vocação, mas sim porque é uma profissão muito bem remunerada,cá isso é um facto. Nos tempos que correm cada vez mais as pessoas são mais mal formadas, sem princípios, sem ética, sem respeito pelo próximo e se há profissão em que isso devia ser obrigatório é na de medicina.
    Acho que a maioria dos médicos assume uma postura de superioridade relativamente ao doente que eu acho inaceitável,é como se estivessem num pedestal e o Dr. lhes concedesse um estatuto fora do normal. É curioso, que cá isso acontece bem mais com essa profissão do que com outras licenciaturas, é estranho…
    Há excepções? Há, felizmente, mas posso garantir que cada vez menos, infelizmente…
    Acho que qualquer ser humano, esteja em que profissão estiver, não sabe tudo, não é o dono da verdade, e deve estar aberto a novos conhecimentos, novas verdades, novas aprendizagens e realidades, todos nós aprendemos todos os dias ( eu penso assim e acho que todos devemos pensar assim) e o contacto com o doente é muito importante , porque a teoria é limitada e a prática nos ensina muito. Acho que falta essa humildade de poder aprender coisas novas, até com um doente, com uma empregada, enfim, com a vida.
    Cá é essa realidade que temos, e cometem-se muitos erros ,e graves, por essa falta de receptividade, de diálogo e de sensibilidade,falta de responsabilidade e de respeito pela dor do paciente,por se achar que se sabe tudo, quando o que está em causa são pessoas,vidas e isso é muito importante.
    Vc tb me parece ser uma excepção,apesar de não conhecer a relidade daí.
    Encontrar um bom médico, com consciência, preocupação em ser melhor é como encontrar uma agulha no palheiro Meire, aqui é o que se passa…
    Um abraço

    • Pois é, Niki. Aqui no Brasil as pessoas acham que só porque o médico é estrangeiro automaticamente é excelente e não precisa de prova, de nada. A verdade é outra. Um beijo!

  7. Parabèns ,mais um post excelente.Precisamos de mais Meires como você!!!Bj

  8. Olá Meire!
    Como você, também sou medica. Achei extremamente lúcida a sua opinião sobre esse polemico assunto. Mas sabe, sinto todos os colegas desanimados com todo esse bombardeio de criticas e hostilização aos medicos brasileiros. Agora, somos rotulados de playboys, mercenários, entre outros adjetivos pejorativos. As acusações são unanimes em afirmar que os medicos querem ser ricos! Você viu a concorrência do ultimo concurso do INSS? O salário não é astronômico, não é ora ficar rico, mas é justo e você tem uma carreira ascendente e a garantia do recebimento do seu salário. As pessoas acham que o fato de receber um diploma Medico, já transforma seu status econômico.
    Alem disso, não me conformo nesse regime de contratação beirando a escravidão do medicos cubanos.
    Adoro seu blog!

    • Marcela,

      As pessoas não sabem o que falam sobre a classe médica, acredita que não me incomodo? Até acho interessante encontrar as falácias do discurso, porque os que afirmam que médicos são mercenários e só pensam em dinheiro são os mesmos que se impressionam porque não aceitamos ganhar 10 ou 20 mil reais em locais que não nos dão condições de trabalho. Se fôssemos mercenários estaríamos onde o dinheiro está. Eu poderia ganhar 3 vezes mais do que ganho, mas permaneço no local onde sofro menos e posso ajudar mais. E também são os mesmos que acham que somos ricos ou que temos uma vida de príncipes e princesas. Quem conhece médicos, que tem médicos na família, sabe que a realidade não é essa, sabe que gastamos muito para exercer nossa profissão. Beijo!

  9. Oi, Meire!

    Não consigo descrever essa realidade da saúde em nosso país com outra palavra que não seja “triste”. E infelizmente, não consigo ser otimista, a realidade que vejo diariamente em nossa autarquia me desanima e me impede de enxergar dias melhores à frente.

    Como já comentei antes, sou farmacêutica não praticante. Não tive a gana necessária para me desenvolver na profissão, rapidamente percebi que talvez eu não tenho estrutura emocional para lidar com a saúde (doença?) alheia. Por isso, admiro muito os profissionais da saúde que honram seus diplomas e encaram o lado não tão bom da vida.

    Me entristece saber que mais uma vez, como parece que é regra por essas bandas, a raiz das dificuldades não será atacada. As medidas paliativas não deixam de ser importantes, mas à custa de exploração de profissionais e visando resultados eleitorais, me envergonham.

    Beijo,
    Paula

  10. Parabéns pelo post Meire.
    Eu pensei em comentar sobre o Programa Mais Médicos aqui no Salada, mas preferi não levantar essa polêmica aqui. Li o comentário do Roberto ontem, fiquei horrorizada com a atitude da “classe médica” do Ceará e com o comentário da jornalista.
    Sabemos o que se passa por tras do Programa e que esse feito, já havia sido desenhado pelo nosso queridíssimo ex-presidente. (o sistema de saúde cubano é um dos melhores do mundo, a ELAM é uma das melhores formadoras de médicos do mundo, o curso de medicina em cuba é isso ou aquilo e enviaram vários estudantes brasileiros para cursarem medicina em Cuba, que lindo! ) Há alguns meses o governo federal importaria: Portugueses, Espanhóis e…Cubanos e na primeira oportunidade fecharam a vinda de 4.000 médicos cubanos, 400 já estão em solo brasileiro. Hoje o governo cubano, ganha e muito em cima da exportação da mão de obra médica, estamos rumo à Bolivia, Paraguai -> A Venezuela ainda troca a mão de obra médica por barris de petróleo.
    E ainda há quem queira comparar tal situação com o Reino Unido (risos).
    No interior do Estado que eu moro, já ofereceram 30.000 para a vaga de pediatra, não apareceu nenhum médico. Por que não é só o salário que está em questão, não há qualidade de vida, plano de carreira, saúde pública de qualidade.
    Os médicos cubanos estão totalmente desamparados, foram contratados sem que seus diplomas fossem revalidados, não foi feito concurso público (…).
    Eu sinceramente estou desiludida, 2014 vem ai… e ainda temos o Ato Médico pela frente.!
    Beijos!

  11. Olá Meire,
    Acompanho o Salada há quase um ano e me encantei desde o primeiro post que li. Esse é o meu primeiro comentário. Sou Médica como você, todos os dias lido com as agruras da humanidade personificadas nos pacientes de várias idades, cores, religiões, classe social. Cada um deles é único e complexo.Muito complexo! A verdadeira Medicina é uma Arte, isso que infelizmente vemos acontecendo, desde as vaias até os desmandos do governo, para mim não é Medicina! Sou médica de pacientes estomizados, aqueles que possuem uma abertura abdominal feita cirurgicamente para saída de vezes e/ou urina e usam uma “bolsinha” externa aderida na pele que serve como reservatório. Infelizmente a imensa maioria tem como doença de base o câncer. Imaginem vocês este pacientes conviverem com dois estigmas: câncer e saída de dejetos pela barriga! Quando os atendo sou médica, psicóloga, conselheira, assistente social, cidadã, mulher… Seria impossível simplesmente dar uma receita e ignorar o fato que esta medicação talvez não tenha no posto, que muitas vezes eles não sabem o que escrevi pois são analfabetos, que às vezes aquilo que mais os incomoda e dói é o sofrimento da alma e não do corpo e tantas outras questões. Não sou rica e sinceramente acho que deveria ser melhor remunerada, mas a questão é que não há dinheiro no mundo que me faça olhar todo esse sofrimento e não ser afetada por ele. Muitas vezes atendo 20 pacientes e parece que atendi 100 visto a imensa carência e demanda que todos contem. Me sinto completamente esgotada e inconformada com tudo isso, mas como você, acredito na humanidade e tenho esperança de que nossa Arte ainda será revivida e a Medicina junto com a Humanidade será imensamente melhor!
    Grande abraço da colega, Jéssica M.

    • Jessica,
      Eu também sinto este peso no corpo quando termino de atender. Muitas vezes os pacientes só precisam de uma palavra de conforto. Um beijo!

  12. No conjunto destas observacöes e questionamentos, onde ficam os recursos para obter os mais necessários equipamentos e material de consumo para os hospitais já construídos e localizados no interior do País e nos quais os médicos deveräo atuar? Neste assunto ninguém toca e nem tocou. (näo sou médica)

  13. Olá Meire,
    Eu tbm tive a mesma indignação do Roberto, pelas falta de respeito para com os médicos.
    Há 3 anos atrás eu e uma equipe de engenheiros desembarcamos em Cardano Al Campo na Itália e nos sentimos hostilizados pela falta de credibilidade do nosso trabalho, imagine nós substituindo uma equipe de engenheiros alemães? Foram 3 meses duro de trabalho e de superação.
    A minha indignação com tal atitude foi a agressão verbal desnecessária, independente da causa se foi eleitoreira e populista os médicos cubanos foram “CONVIDADOS” e de forma alguma justificam ser tratados de tal maneira. Usei o meu exemplo pessoal pois se naquele momento na Itália eu me senti hostilizada eu imagino da forma que esses médicos foram tratados. Lembrando que eu não sou contra a contratação de médicos desde que os seus diplomas sejam devidamente validados.
    Só para ter ideia, eu resido em São Paulo, capital, Zona Sul e a moça que nos ajuda com a limpeza está há 7 meses aguardando uma consulta simples com ginecologista, pois na UBS local há apenas 1 ginecologista que vem só às quartas-feiras eu sempre indago que se na capital de São Paulo é desse forma quem dirá nos locais de escassez e retirados como o próprio sertão nordestino.

    Meire você escreve demasiadamente bem, acabei de enviar o link do seu último post para uma amiga que desconfio que está começando a ficar anorexa. Muito Obrigada!

  14. Ufa! Até que enfim uma posição coerente e lógica! Parabéns Meire…Compartilhei no face! Bjos

  15. Parabéns, Meire.Sou médica e acompanho a parte “leve”do Salada, adoro.
    No nosso dia, a gente ” chora por dentro”…
    Só não sou mais otimista, como vc.
    Abçs.
    Marta.

  16. Adorei o post parabéns! Vivemos num país de muitos contrastes, enquanto alguns têm tudo outros não tem nem o mínimo necessário para uma vida digna, e isso é muito triste (ninguém melhor que você para nos dizer, vê situações diárias do quanto a população carente sofre com o abandono do Poder Público). Faltam investimentos em vários setores saúde, educação, segurança e passaria horas falando de tudo o que falta. Acredito que o primeiro passo para uma mudança no cenário atual, seriam políticos menos corruptos e mais comprometidos com a população brasileira, legislações mais pontuais coibindo e punindo esses ‘caras’ que ao invés de aplicar as verbas em políticas públicas aplicam esse valor nas suas contas bancárias. Contribuímos até agora com mais de 1 trilhão em impostos e até o final do ano deve chegar em 8 trilhões (infomoney) e não temos as coisas mais básicas que precisamos. Que país é esse! Realmente é revoltante! beijos Meire…

  17. Texto maravilhoso. Compartilhei no Facebook, pois ele é tão coerente que merece fazer contrates com todo tipo de opinião leiga que aparece por lá. Mais uma vez, parabéns!

  18. Estou emocionada com sua opinião, Meire, inclusive, ontem, quando me parece ter havido grande frenesi ao redor do programa Mais Médicos e da importação de profissionais, pensei em pedir que você se pronunciasse a respeito (qual não foi minha surpresa ao entrar no Salada e ver isso, rs). Sou jurista, mas tenho um grande número de amigos médicos e estudantes de medicina que, infelizmente, estão irredutíveis: para eles, os médicos cubanos não prestam e pronto. Isso me deixa muito triste; ora, se a problemática do sistema de saúde brasileiro tem vários fatores que influenciam para que o sistema esteja à beira da falência, por que haveríamos de ver essa medida do governo nessa dualidade, apenas como sendo algo ‘que presta ou não presta’?
    Compactuo com a maior parte desse post e acredito que todo profissional de saúde deveria ter uma opinião parecida. É que alguns, me parece, pensam que os brasileiros estão aceitando essa vinda sem crítica alguma, achando que a chefe de Estado salvou a todos com tal medida e que nada mais precisará ser feito, porque os cubanos (que não serão só cubanos, estes são os que estão vindo à princípio) vão fazer tudo o que os médicos brasileiros não fazem. Reconheço que a propaganda que está sendo feita é essa, mas que a população, se já não tece críticas a essa imagem, o fará em breve. Pretendo, inclusive, compartilhar esse post no meu perfil em rede social (com as devidas referências, naturalmente).
    Que continuem vindo os cubanos, mas que venham também medidas de suporte, pois medicina não se faz apenas com médicos.

  19. Fantástico post!
    Você possui uma visão muito realista e lúcida!
    Parabéns e ótimas as suas respostas aos comentários dos leitores!
    Grande beijo!

  20. Dra Meire, moro aqui no interior do Piauí e realmente quem mora no interior brabo sabe das dificuldades que o povo passa, para se ter noção aqui na cidade Paulistana/PI estava sem raio-x e ultrasson há semanas e as pessoas morrem por problemas considerados simples como diarreia, tuberculose, apêndice e o pior é que em pouco mais de um ano já soube de mortes de 2 grávidas na mesa de cirurgia pois aqui não tem se quer um leito de UTI. Concordo com você quando fala em faltar assistÊncia física para o exercício da profissão mas um médico que possa instruir a procurar um especialista ou tratar de programas de saúde já resolve muito.Não sei se o que eu falei é irrelevante ou está fora dos padrões mas eu e meu marido temos consciência de que aqui não podemos adoecer.

  21. Meire,
    Adorei!!!! Tao preciso e honesto, seu post!!! Posso divulgar no meu facebook?
    Beijo
    Débora

  22. Quando escrevi o comentário até pensei: A Meire até que poderia escrever um post, mas humildemente não me acho no direito de cobras a quem já é por demais solícita.

    Nos meus comentários atuais estou tentando ser o mais conciso e focado, para não me estender e sair muito do assunto, então complementando o que escrevi:
    Me referi mais a atitude imatura e infeliz de parte dos médicos que protestaram, afundo é bem mais complicado, tem muito de política envolvido e concordo que eles teriam de participar de alguns exames p checar a aptidão e o preparo de preparo de cada médico para o MAIS MÉDICOS, onde estão tentando atender uma enorme demanda trazendo de fora o que não é suficiente por aqui, chega até ser uma forma a assumir a nossa incompetência, por outro lado é uma mão amiga, mas amiga de quem? (pelo ponto de vista dos médicos que criticaram).
    Abraço.

  23. Nossa li e fiquei chocada com a mensagem e link que você recebeu! Que vergonha “médicos” fazerem isso! Seu texto é lindo sua linha de pensamento é digna de ser aplaudida de pé! Quem dera o Brasil tivesse a oportunidade de ter mais pessoas como você numa área onde pudessem atuar e fazer o certo e o bem por esse Brasil lindo! (digo na política, porque sei que na sua área você já faz isso!) Também sou otimista mesmo que numa utopia desenfreada ainda assim sonho e vejo lá na frente um país justo, pessoas honestas, pessoas que respeitam tudo e todos! Um grande abraço!

    • Makie, mas recebi a informação aqui que aquela pessoa que postou no Facebook (e que aparece no link) não é médica. Como eu disse no topo pode não ter ocorrido como está no link, mas de qualquer forma receber pessoas com vaia não é coisa que se faça.

      • Sim, Meire, é verdade… nossos médicos aqui em Fortaleza/CE (busque fotos na internet, vai verificar uma quantidade de jovens loiras, bem trajadas e maquiadas) vaiaram e agrediram verbalmente os colegas que desembarcaram para atender em locais que não interessam à maioria dos médicos brasileiros. No dia seguinte, vários movimentos sociais foram ao local onde os cubanos estão recebendo treinamento, e lhes deram flores e abraços, com pedidos de desculpas.

      • Eu vi, Tatiana. Vi uma foto onde duas estavam bem perto de um médico e uma delas vaiando olhando para ele. Pode não ter sido como a mídia divulgou, mas algum excesso teve sim. Achei humilhante e uma demonstração de má educação. E pensar que ocorreu justamente no nordeste, onde muitos médicos sofrem preconceito quando vão fazer especilização no sul ou sudeste!

  24. Meire,

    Mais uma vez você é brilhante ao analisar a realidade vendo a floresta toda e não enxergando apenas uma árvore. Regulamentação e exercício de profissões é coisa muito séria no mundo civilizado, porém ao sul do Equador, nem sempre…profissionais da saúde são formados por professores e sobre essa profissão o que se pode falar de positivo? salário?condições de trabalho? formação/atualização? Posto de saúde com centenas de crianças esperando atendimento e sem abaixador de língua para examina-las é semelhante a escola de cuspe e giz: nenhum dos dois garante cidadania.
    Só restam os profissionais de verdade que dão o melhor de si e fazem os remendos nas irresponsabilidades eleitoreiras que você bem descreveu e que nós bem conhecemos.
    Para terminar, as condições da medicina praticada pelos planos de saúde, regulamentados pela ANS já não ficam tão distantes da realidade do SUS, com a diferença que neste caso o usuário pagou por duas vezes: o imposto que é compulsório e a mensalidade da prestadora.
    Pelo exercício legal de todas as profissões, principalmente, neste momento dos médicos formados no exterior, mais uma vez minha solidariedade aos que como você são MÉDICOS QUE TRATAM DO CORPO E ALMA DOS BRASILEIROS.

    Bjos
    Dolores

  25. NOTA DE ESCLARECIMENTO

    É lamentável o que está sendo colocado pela imprensa para jogar a população contra os médicos, inclusive alguns médicos acreditando nesta versão.
    Vamos aos fatos:

    1 – Os médicos do Ceará e nem o Sindicato dos Médicos não foram para a recepção dos médicos cubanos no domingo à tarde como foi noticiado pela imprensa, inclusive eu só sai do plantão às 19 horas.

    2 – Nunca o Sindicato dos Médicos e também as outras entidades foram contra a ida de médicos para o interior.

    3 – Fomos sim de maneira pacífica (sem violência) e democrática fazer um protesto contra a vinda de médicos do exterior sem o revalida e com sinais de trabalho escravo

    4 – Durante as manifestações dos médicos, enquanto os médicos cubanos e os gestores se encontravam dentro da Escola de Saúde Publica, nós colocamos pelo microfone várias vezes que não iríamos aceitar trabalho escravo de nossos colegas cubanos: sem direitos trabalhistas, sem poder ter casamento com brasileiro, também para não sem poder trazer a família, entre outros. Falamos, várias vezes, que não aceitaríamos este tipo de trabalho para estes médicos do Programa mais Médicos, pois isto na nossa opinião é trabalho escravo.

    5 – No final recebi uma ligação do Dr. Arruda, secretário de saúde do Estado, dizendo que o pessoal estava querendo sair, mas estavam com medo dos manifestantes e eu disse para ele que podiam sair, mas que os responsáveis ali presentes iriam levar uma grande vaia, pensávamos que eles iam sair separadamente e para surpresa nossa saíram todos juntos, isto é, gestores e médicos. Formamos um corredor polonês e quando os gestores, acompanhados por médicos, foram vaiados. Durante a manifestação repetimos várias vezes que não aceitaríamos trabalho escravo nem de brasileiros e nem de estrangeiros, e quando foi colocado a palavra de ordem de “escravo”, não foi no sentido pejorativo, pois jamais iríamos ter este comportamento, foi sim em não aceitar o trabalho escravo que é o que vai acontecer, caso não exista uma mudança na MP 621.
    Por uma questão humanitária os médicos do Brasil não aceitarão exploração de nenhum médico em nosso território.

    7 – Quero reafirmar nosso compromisso com os médicos, com um SUS público e de qualidade e com as leis do nosso País e vamos continuar lutando contra todo trabalho escravo e que todos profissionais formados fora do Brasil e que queira trabalhar entre nós que faça uma prova de habilitação para poder atender bem ao nosso povo.

    6 – Lamentavelmente, para surpresa nossa lemos pelos jornais as informações que não correspondiam ao que aconteceu.

    Dr. José Maria Pontes (PRESIDENTE DO SINDICATO DOS MEDICOS DO CEARA)

    • Fizeram um corredor polonês com vaia.
      Isso não é protesto pacífico. Sei o que meus colegas sindicalistas pensam e não discordo deles, mas expor os médicos de fora a este tipo de acolhida não foi uma atitude boa.

  26. Acho que outro problema é a exigência de validar o diploma para uns e não para outros. Porque um médico americano, ou até um urugaio – aqui ao lado -, precisa validar o diploma e um cubano não? Porque uma nacionalidade ganha previlégios em relação a outras?

    Se eu fosse médico e quisesse ir atuar nos Estados Unidos, por exemplo, eu teria de passar pelos mesmos testes – não importa que eu fosse brasileiro, inglês ou canadense.

    • É, Pedro. Esse privilégio deveria incomodar as outras pessoas mas não incomoda. Bj

  27. Grande post, como sempre. Parabéns pela opinião claramente exibida.Ficaria impossível não parabenizar, mesmo que fosse contra o que você disse.

    Como ex Fisioterapeuta Intensivista tenho também minhas marcas deixadas pelo Sistema de Saúde do nosso país, não só o público mas também o particular, único onde trabalhei mas que também tem enormes deficiências.

    Não foi o seu caso, mas discordo de qualquer pessoa que coloque o médico na posição de “pobrezinho que estudou tanto pra ganhar tão pouco”. Concordo que muitos buracos ficam abertos quando se coloca um médico onde não há nem um aparelho de raio x, mas vamos combinar que os salários oferecidos pelo SUS não são baixos, muitas outras profissões, com formação tão extensa quanto a medicina, não oferecem salários tão bons.

    Na minha cidade natal, Duque de Caxias uma das maiores do RJ e divisa com a capital do estado, o salário para uma Enfermeira do programa PSF era de R$ 4.500 para 4 horas de trabalho diário. Envolvia todos os programas básicos de saúde citados por você, além da visita aos idosos para curativos e etc. Quanto deveria ser o salário para um médico? Sabe quantos trabalhavam no posto? 1.

    Na faculdade onde estudei, particular, via uma média de 100 médicos formados por semestre. Como pode haver necessidade de importar mão de obra? E nessas condições de escravidão velada? Porque, vamos combinar, contratar mão de obra sob as condições impostas pelo governo cubano é ridículo e beira o absurdo.

    Óbvio que a acessibilidade à medicina “avançada” (todos os exames e especialistas…)deve ser garantido, mas há muito que se possa fazer com boa vontade e dedicação a profissão que se escolheu.

    Vejo hoje Meire, em todas as profissões, uma busca implacável pelo Eldorado dos salários altíssimos, da fama…Poucos querem ser mais um, fazer o seu melhor. A grande maioria quer ser o Cirurgião Chefe do Sírio, o Imortal da ABL, poucos querem ser o médico da família, o professor de português. Isso gera obviamente excesso de oferta de profissionais, muitas vezes não qualificados, em certas áreas e falta em outras.

    Resumindo meu comentário gigante: há dois problemas nessa equação. Um deles é o desinteresse político em colocar em prática o programa de saúde pública mais perfeito já planejado, o outro é a falta de profissionais interessados na medicina de família, de interior, sem fama de televisão mas onde se ganha convite pra festa de aniversário de todas as crianças que se ajudou a nascer.

    Pode ser uma visão meio romântica de minha parte, mas realmente creio que não mataria ninguém. :)

    • Marcela,
      O problema é ainda mais atrás. Não há oferta suficiente de residência médica em Medicina de Família e pela inexistência de carreira de Estado a especialidade é pouco valorizada.
      Por ser longo e por envolver custos mais altos e mais cobranças sociais de todas as naturezas (quem assina o atestado de óbito é o médico, quem é condenado quando uma equipe toda erra acaba sendo o médico, os congressos médicos, livros e até anuidades de conselhos e sociedades do médico são mais caros, as ações judiciais envolvendo médicos chegam a cobrar 200.000,00 de um profissional) se o médico parar de ser bem pago vai haver um desinteresse na busca do curso porque ele teria que pagar para trabalhar. Se estudando menos e sem tanta responsabilidade e sem tantos custos a pessoa ganha pouco, para quê perder 10 anos na faculdade? (Eu fiz 10 anos, 6 de curso, 2 de residencia e 2 de especialização) e ainda ser submetido a todo estresse da carreira? Lembro que quando entrei para o SUS o que eu ganhei no primeiro mês só pagou dois livros e a gasolina do mês. Entre aluguel e condomínio de meu consultório eu pagava R$ 2.000 a 2.500,00 reais então para ser médico o custo é alto (e não só o custo material).
      Um contrato para Médico de Família não tem como fixar um médico no interior porque é temporário. Se funcionasse como funciona o meu cargo, da forma que descrevi no texto, sempre teria médico em todos os lugares. A culpa, definitivamente, não é dos profissionais é da estrutura.
      Sim, a forma que você falou foi um tanto romantizada, a vida do médico não tem esse glamour, os que tem fama e aparecem na TV ou são ricos são minoria e não é isso que a maior parte busca. A maioria não vê o filho crescer, fica muito mais tempo fora de casa, envelhece cedo. Boa parte tem depressão, se isola dos amigos, às vezes é explorado pela própria família. Quantos fisioterapeutas que você conhece se suicidaram? Possivelmente não muitos. Eu já perdi vários colegas assim, por suicídio e estou com vários afastados do trabalho por depressão. Há 3 semanas mais um colega meu se suicidou, um anestesista. Morreu sozinho num quarto de hotel.
      O que falta é um plano de carreira e estrutura melhor no interior, só isso.
      Já me ofereceram 30.000,00 para ir para o interior. Só salário o médico não quer, por isso sobra vagas. O bom salário é apenas uma das necessidades, enquanto não existe um plano estruturado para interiorização, o médico fica onde sofre menos. Bj

      • Oi Flor! Registrando aqui só que recebi seu comentário, viu? Um beijo

      • Nossa leio o que você escreve e é muito importante! Gostaria que todos tivessem esse pouquinho de conhecimento e entendesse que nenhuma profissão é só glamour! Muito menos médico! Meu filho quis fazer medicina….levei anos tentando mostrar pra ele que não era o caminho….(mas fiz isso porque como mãe sabia que não era pra ele, era muito novo e ainda não tinha a noção de quanta responsabilidade é lidar com a vida do próximo, e porque sabia que era onda pois a maioria da turma de terceirão dele iria prestar medicina) nas escolas nos cursinhos ser médico é mostrar nível social…isso é uma pena…porque pra mim é uma profissão linda, de muita muita responsabilidade e não é pra qualquer um! Não é pra quem pode pagar esse curso é pra quem ama salvar, respeita o próximo e queira se dedicar ao outro….tem que ter muito amor na veia pra ser médico. Um abraço.

      • Makie, eu entrei em Medicina quando meu primeiro sutiã ainda era novo, eu era muito novinha (fui alfabetizada aos 3 anos e meio, ehehe). Nem sabia o que vinha pela frente.Passei por muita coisa, dei muitos plantões. Mas faria tudo de novo! Beijo ;)

      • O seu comentário foi comovente, fiquei compadecida com o seu colega.
        Eu não tenho cunho nenhum para a área da saúde, principalmente para áreas que se tem contato direto com as pessoas, por isso nunca deixei de os admirar na minha ignorância acredito que vocês realmente tenha um dom de Deus. Muito Obrigada a você e a todos os seus colegas de trabalho que são dignos , merecem todo o nosso respeito.
        (Desculpe, eu sei que já comentei neste post, mas não pude me conter com esse seu comentário.)

    • Você tem razão, Meire, o problema é bem maior.

      Não conheço fisioterapeutas que se suicidaram, mas conheço muitos que abandonaram a carreira. Eu mesma levei meses de choro e muitas noites mal dormidas até me decidir a largar tudo. Foram 4 anos de faculdade, 2 de pós graduação, muitos sacrifícios da minha família para conseguir me manter na faculdade, tanto estudo, tantos livros devorados…se falar na minha paixão pela profissão e pela terapia intensiva.

      Mas eu fui fraca e abandonei, confesso. Quando vi que meus colegas de profissão tinham 15, 20 anos de trabalho e ainda passavam noites em plantões sendo tratados como escravos (na famosíssima Rede D’or são 3 fisioterapeutas em plantão noturno em hospital com mais de 200 leitos), sem vínculo empregatício (não sei no seu estado, mas no RJ não existem fisioterapeutas intensivistas de carteira assinada), pessoas muito bem formadas que não viam seus filhos crescerem, professores meus tinham 5 turmas na faculdade e trabalhavam em 2 hospitais pra conseguir ter uma carro ano 98. Pagavam-se R$80 por plantão de 12 horas. Muitos deles depressivos, com casamentos acabados, desenvolvendo vários distúrbios…e eu ia pelo mesmo caminho.

      O exercício da medicina não é fácil, o papel de cuidador exige dedicação intensa e eterna e a recompensa não é justa, afinal é a sua vida em troca da de outros. Sei que a culpa não é só dos médicos e que uma grande maioria se forma porque tem um sonho de infância que é sufocado na prática do dia a dia. Mas o que a pessoa aí abaixo falou sobre o filho e o “status” na faculdade e cursinhos é verdade, acaba que se dá um diploma de médico sem realmente preparar a pessoa pra dura vida que existe lá fora.

      Realmente espero que o governo coloque em prática o SUS que está no papel, que o povo exija seus direitos e vote conscientemente, que médicos sejam bem formados e preparados para o exercício da profissão e que o cidadão tenha o atendimento que merece.

      (p.s.: Desculpe-me os comentários gigantes mas adoro uma boa conversa com quem sabe mostrar o seu ponto de vista e com que acabo aprendendo e conhecendo lados novos de uma mesma questão).

      Abraços

      • Pois é Marcela… A vida do profissional de saúde é difícil e o médico ainda tem o agravante de ser o principal responsável pela vida do paciente e de sofrer processos judiciais completamente absurdos, virou indústria. Recém auxiliei um perito num parecer onde uma pessoa que vinha monitorada pela enfermagem (tudo dentro dos conformes) processou os médicos e mais uma médica que nem estava mais no plantão na hora em que o caso dela complicou (examinei toda a documentação, todo atendimento ocorreu dentro do protocolo). A enfermagem, mesmo fazendo parte da equipe e tendo ampla responsabilidade pelo seguimento de monitoração não foi sequer citada no processo e a medica que não errou em absolutamente nada possivelmente vai ter que vender tudo o que conseguiu juntar na vida e ainda fazer empréstimo para pagar o que o Juiz está tendendo fixar. É a sociedade cobrando que o médico seja um deus e tenha uma bola de cristal e ele querendo ser tratado como trabalhador. A situação dos fisioterapeutas é para mim calamitosa, tem plano que paga 7 reais por uma avaliação. Um encanador não alfabetizado cobra 10 vezes mais por seu serviço, não é o encanador que cobra demais. É o trabalho do fisio tratado como se não fosse nada. Bj

    • Meire depois que li sua resposta ao meu comentário fiquei pensando será que agi errado? Será que ele talvez não teria seguido o caminho certo se eu não tivesse interferido? Bom agora ficarei assim só pensando…..abraços…..

      • Não pense assim, Makie. Se fosse vontade mesmo ele acabaria te convencendo ;) Bj

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