A lembrança mais doce da minha infância

Do fundo do bau: minha irmã ainda carequinha e meio banguela e eu, com uns 4 ou 5 anos de idade, exibindo todo o glamour do corte de cabelo feito por mim:  o luxo assimétrico,  um lado mais curto que outro. Neste dia eu também raspei meus braços com o barbeador do meu pai. Mãe, esse meu vestido não estava curto demais, não?

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Acabei de perguntar no Twitter: qual o brinquedo que você mais gostava na infância? e ao escrever me dei conta de que não me apeguei a nenhum, sequer tenho imagem mental deles.

E foi assim, já com vontade de chorar com saudade da minha mãe e dos meus irmãos, que me fiz outra pergunta.

Qual a lembrança mais doce da minha infância?

São com pequenas perguntas que fazemos a nós mesmos que descobrimos o quanto somos felizes.

Minha mãe sempre fala que sou uma pessoa de muita sorte, e sou mesmo. Tive a sorte de ter pais inteligentes, equilibrados, sensatos, carinhosos e que me prepararam para muitas das responsabilidades da vida me ensinando coisas desde cedo que muitos pais não ensinam nem aos seus filhos adolescentes.

Eles me escolheram padrinhos igualmente inteligentes, equilibrados, sensatos e carinhosos e que cumpriram o papel verdadeiro dos padrinhos, que é substituir os pais sempre que necessário.

E como se fosse pouco ter quatro pais presentes, tive avós maravilhosos e mais dois irmãos de verdade e dois primos-irmãos, todos bem encaminhados na vida. Uma infância feliz mas com boa educação e limites não nos poupa de fazer escolhas erradas, mas nos prepara para lidarmos melhor com nossas frustrações e deixarmos as mágoas para trás, ou seja, contribui com nossa maturidade emocional.

Talvez por tudo isto eu não tenha tido apego a nenhum brinquedo e tenha dificuldade de escolher qual a lembrança mais doce de minha infância. Mas acho que as mais doces são justamente as que estão mais fortes em nossa memória e de cara me vieram sete, o número perfeito para a Cabala :)

Minha irmã é uma boneca de tão linda. Quando éramos pequenas a preocupação dela era parecer comigo, era muito engraçado, ela imitava meu jeito de sentar, de falar, queria roupas iguais … Um amor muito grande, eu daria um rim para ela. Muita saudade ! Mas o mais engraçado era irritá-la fazendo paródias. Eu adorava fazer paródias de músicas envolvendo um apelido que ela odiava. Depois eu deixava ela me bater, era ótimo, aquela coisa meio gordinha irritada e me espancando.

A diferença de idade com meu irmão é maior, ele foi uma criança dulcíssima, menino meigo e lindo,  bem branquinho das bochechas vermelhas e lábios cheios, como os da nossa mãe. A lembrança mais forte foi quase uma tragédia.  Quando meu irmão tinha dois anos caiu na parte funda da piscina por um descuido dos adultos. Meus primos que eram bem pequenos mas já sabiam nadar, se jogaram na água instintivamente, conseguiram trazê-lo para a borda, colocaram o baixinho de lado e quando minha mãe chegou ele estava meio pálido, mas rindo e querendo pular de novo.

Tenho várias imagens deliciosas com meus padrinhos e primos, quase todas envolvendo a piscina, mas a mais doce imagem é lembrar da minha madrinha preparando lanche específico pra gente: biscoito com doce de goiaba, fora lembrar dos momentos que a gente brincava na sala ao som da Rita Pavone, imitando como ela dançava nas festas de solteira.

Eu odiava ervas, achava horrível aquelas coisas verdinhas pequenas misturadas com a comida. Mas as almôndegas da, temperadíssimas com coentro e cebolinha, eu comia sem reclamar enquanto achava lindo perceber como ela tinha ciúmes do vô, principalmente quando ele chegava atrasado para o almoço. Eu lembro do cheiro das almôndegas, da toalha de mesa de plástico, da ventilação espetacular da cozinha, dos quadris largos dela, dos seus cabelos longos e lisos, dos tornozelos finos…

As três últimas próximas lembranças das muitas que marcaram minha infância com certeza promoveram um impacto imenso na minha personalidade. Sou grata por toda minha vida por ter vivido estas coisas. Vou colocá-las em ordem cronológica, porque não tenho como categorizá-las por importância.

Eu era muito sapeca, não parava quieta e na minha família, a exemplo de muitas famílias com heranças judaicas ou raízes nordestinas,  sempre houve a tradição de parentes cuidarem das crianças. Minha mãe parou de trabalhar quando eu nasci e voltou quando eu tinha uns 3 anos, então meus avós paternos que moravam perto da nossa casa em São Paulo deram total apoio.

Meu avô havia sido político no Ceará e sempre foi autodidata, ele tinha uma letra linda e era um Lorde, mas a maior característica dele era não ter pressa. Era calmo, criterioso, tinha um enorme bom senso e absolutamente nunca apressava o passo, nem se estivesse no meio de uma chuva.

Então imaginem o que deve ter sido pro meu avô, que nunca havia assumido o cuidado direto dos filhos porque naquele tempo a mulher não trabalhava, passar a cuidar de uma pirralha de 3 anos, do tipo que sobe em armário de cozinha.

Mas ele encontrou uma solução. Meu avô descobriu que eu tinha interesse por leitura. E foi assim, que aos 3 anos e meio, eu já estava alfabetizada. Para o meu avô, toda minha admiração e agradecimento por ter me deixado essa  herança preciosa. Acho que sem ele este Blog não existiria.

Quando eu estava com 5 anos aconteceram mais dois fatos que se carimbaram na minha personalidade, um envolvendo meu pai e outro a minha mãe. Cada um deu sua lição para o mesmo episódio.

Como boa parte das crianças que tem alimento a vontade à sua disposição, eu tinha falta de apetite e dava trabalho para comer. Hora do almoço, mesa posta, arroz colorido, frango. Eu simplesmente estava sem fome, peguei uma coxa de frango, joguei no chão e depois chutei para debaixo da geladeira. Muitas mães teriam dado um tapa no filho ou teriam começado a gritar histéricas, é o que vejo hoje. Mas minha mãe, não.  Esperou meu pai chegar para juntos decidirem como lidariam com a questão.

Ela primeiro me colocou de castigo para que eu pensasse no que havia feito. Quando meu pai chegou em casa, cansado do trabalho, e soube do meu vandalismo, pela primeira vez na vida perdeu a paciência que herdou do meu avô e já entrou no quarto reclamando. Sentou na cama e chegou a levantar a mão para mim, mas quando olhou pros meus olhos, imediatamente afagou meus cabelos e começou a conversar, inclusive me pediu perdão por ter perdido a paciência e elevado a mão contra mim. Este episódio foi pincelado no artigo que defendi o direto da criança de não receber palmadas.

Ele me contou da infância difícil que passou no Ceará, que viu crianças morrendo por não terem o que comer,  do quanto meu avô precisou lavrar a terra para que os filhos não passassem fome e do que ele sofreu em São Paulo, em busca de oportunidade, para nos dar o que tínhamos. Acho que amadureci muito neste dia, muito mesmo.

E em um dia que não me recordo, porque não lembro se foi exatamente por este episódio ou outro, minha mãe me levou ao Viaduto do Chá para que eu visse de perto a realidade dura dos sem teto. Foi ali que ela me disse que nada cairia do céu, que eu teria que tomar as rédeas da minha vida, estudar muito e me dedicar aos meus sonhos.

Então neste Dia das Crianças, além dos briquedos, não esqueçam que seus filhos precisam de muito mais.  Se mais pessoas substituissem as palmadas pela reflexão sobre os atos e o perdão, o mundo não estaria assim.  Agora pense: você já pediu perdão aos seus filhos alguma vez? Talvez este seja o primeiro passo para que adultos cresçam tanto com a capacidade de pedir perdão, quanto com a capacidade de perdoar.

Escrevi este post todo chorando e agora entendo o que minha mãe chama de sorte. Minha infância construiu minha felicidade, me permitiu ser perdoada por quem já feri e me permitiu, sem exceção, perdoar não só todas as pessoas que já me magoaram como ter disposição para perdoar o que ainda virá, porque a vida é assim, feita por momentos felizes e por momentos de frustração.

 

Feliz dia das Crianças !!

Beijos,

Meire

 

 

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2 thoughts on “A lembrança mais doce da minha infância

  1. Quer me fazer chorar é? Enchi os olhos d’ádua mon Dieu!
    E eis que é tudo verdade, temos que refletir um pouco, principalmente sobre a maneira que educaremos nossos filhos. Beijinhos!

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