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Entrevista com Marcelo Bolshaw – Síndrome de Asperger

14 jul

Amores,

Este é o primeiro post da nova categoria do Salada Médica, o Salada EntrevistaNão tenho a menor idéia da periodicidade desta categoria, vai depender do meu tempo, néam?

A experiência pessoal de quem está diretamente ligado com o assunto certamente  soma muito mais qualidade aos temas que abordamos neste pequeno Blog.

A categoria está sendo inaugurada por Marcelo Bolshaw. Ele tem síndrome de Asperger e nos mostra até onde nossa força de vontade é capaz de nos levar: não temos idéia do quanto somos capazes e cada história de superação que ouvimos renova a esperança que depositamos em nós mesmos.

Falei um pouco sobre síndrome de Asperger no posts sobre Autismo e nos sobre as obras Mary and Max, The Big Bang Theory e Regenesis para que o leitores do Salada busquem mais informação.

A atenção para o tema Asperger nos EUA é bem forte, mas no Brasil há diagnóstico tardio e muitas vezes os Aspies são erroneamente diagnosticados como pessoas com retardo mental ou com transtorno de personalidade, e o que é pior, muitas vezes são retirados da escola quando deveriam ser estimulados a estudar.

Antes de ler a entrevista que o Salada fez com o Marcelo, um brasileiro que descobriu sozinho que é Asperger e hoje mantem um Blog sobre o tema Autismo, vamos ouvir o Max explicando as principais características dos Aspies:

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Salada Médica: Marcelo, puxe a cadeira e faça uma pequena introdução sobre você ;)

“tenho 49 anos, sou solteiro e sem filhos. sempre fui considerado muito inteligente, mas excentrico e teimoso. me auto-diagnostiquei em 2008. confirmei o diagnóstico com vários psiquiatras desde então. tenho pouco amigos e muitos conhecidos. muitas pessoas me consideram esnobe e distante.”

Salada Médica: Marcelo, quando você era criança foi levado a médicos ou psicólogos por suspeita de sua família que havia algo diferente no seu comportamento?

“sim levaram. minha irmã mais velha foi psicanalista e me levaram a vários especialistas. fiz minha primeira psicanálise aos 10 anos. também fiz treinamento de psicomotricidade e tratamentos fonológicos. mas, como era inteligente, não fui considerado autista.”

Salada Médica: Quando criança e adolescente, quais as maiores dificuldades que você apresentava em casa? E na Escola?

“as maiores dificuldades sempre foram de comunicação e de sociabilidade. e, em decorrencia disto, depressão, mal humor, crises de raiva, etc. mas, acredito que aprendi a tirar vantagens de minhas deficiências muito cedo e que utilizei a teimosia para superar as barreiras através do treinamento. tornei-me obssessivo em vencer as dificuldades, tornei-me um professor de comunicação com doutorado em ciências sociais.”

Salada Médica: Havia alguma coisa na sua infância que parecia mais fácil para você do que para as outras crianças?

“alguns assuntos que eram do meu interesse. por exemplo, sempre me interessei por história.”

Salada Médica: Como é seu relacionamento seus irmãos?

“fui temporão junto com uma irmã caçula. fui criado por minhas irmãs que muito me influenciaram – todas, assim como meus pais, já faleceram. minha irmã caçula é muito próxima de mim, mas mora em outra cidade.”

Salada Médica: Com relação aos amigos de sua infância, havia alguém com quem você se identificasse ou costumava ficar  isolado?

“meus primeiros amigos eram crianças especiais como eu. sempre gostei de caras estranhos. meninas também. minha relação com os amigos e namoradas sempre foi meio utilitária. em contrapartida, não gosto de ser usado. acredito, na verdade, que as pessoas escondem relações claramente utilitárias com uma camada afetividade. hoje, procuro fazer trocas.”

Salada Médica: Quais as disciplinas que você mais gostou ou gosta de estudar? Por quê?

“Sempre quis ser jornalista desde pequeno. acho que era um projeto familiar que eu comprei sem saber.”

Salada Médica: Você nos  falou que se autodiagnosticou como sendo pessoa com Asperger através de um personagem de TV. Você já vinha buscando espontaneamente alguma explicação para o seu jeito de ser ou foi um insight meio vindo do nada na hora em que estava assistindo?

“eu sou uma pessoa que se dedica ao auto-conhecimento há muitos anos e que acumulou uma quantidade informação sobre si mesmo bastante significativa. havia alguns traços da minha personalidade que eu não conseguia transformar por mais que tentasse e uma anatomia destes sintomas me levou à analogia com o personagem portador da sindrome de uma série de TV. Era parecido demais comigo.”

Salada Médica: Como foi a experiência com os médicos após a sua suspeita? Como foi a confirmação do diagnóstico?

“Foi dramática, mas depois fiquei bastante aliviado. acho que sou uma pessoa bem melhor hoje porque me aceito e me compreendo melhor. por outro lado, passei a conviver com preconceito e com a incompreensão dos outros.”

,Salada Médica: Você faz algum tipo de tratamento?

“Fiz um treinamento em habilidade sociais – uma forma de TCC – Terapia Cognitiva Comportamental. Também fiz várias entrevistas e testes. mas o que realmente me ajuda bastante é a meditação vipassana e alguns exercicios de respiração do tai-chi que uso para me acalmar e me manter tranquilo.”

Salada Médica: Você acha que saber que tem síndrome de Asperger o ajudou de alguma forma?

“Grande parte dos portadores desenvolvem outras coomorbidades (panico, transtorno bi-polar, etc). eu sou um asperger puro. em parte porque não fui diagnosticado quando criança. os casos que conheço de diagnóstico precoce não ajudaram as pessoas, ao contrário fizeram que elas vestissem a camisa da doença e se acomodassem. Isto é dificil de ser aceito pelo médicos e educadores que se dedicam a ajudar as pessoas com essa sindrome, mas a verdade é que a forma como a sociedade entende as diferenças é preconceituosa até quando deseja ser mais humana. é claro que asperger me ajudou a ser quem eu sou. mas, se eu pudesse escolher eu não gostaria de ter as minhas limitações e características.”

Salada Médica: Fale um pouco sobre sua coleção de seriados e filmes com personagens Asperger … Em qual deles você vê a pessoa Asperger realmente bem retratada? Há algum que lhe soa de alguma forma ofensivo?

Adam é um filme lindo. Mozart and Whale é um filme pedagógico. Max and Mary é uma animação genial. há vários filmes interessantes para ver sobre asperger e autismo. Chocolate é um tailandez de porrada, em que uma menina autista que luta artes marciais mata todo mundo e morre de apanhar no final. o filme é o terror dos pais e professores, mas é muito importante para quem é autista, principalmente porque a menina que é atriz é realmente autista e realmente luta artes marciais sem duble. Mostra que a teimosia pode ser tornar treinamento.

Rain Man, Forrest Gump e Código para o Inferno são filmes que retratam os autistas de forma caricata. Meu mundo, meu filho é uma peça publicitária da método Son-Rise. Gosto também de Snow Cake e The Other Sister.

Salada Médica: Como foi se organizar para ter mais conforto emocional, você usou algum método em específico? Foi fácil? As pessoas ao seu redor compreendem bem a sua rotina?

“Não, não está sendo fácil, não. Procuro mais compreender do que ser compreendido. Vivo uma vida muito sozinha, junto ou separado das pessoas.”

Salada Médica: Quais os conselhos que você daria para pais, professores e amigos de pessoas com Asperger?

Leiam meu blog (rs): http://euautista.blogspot.com/”

Salada Médica: Hoje, sendo adulto e com bastante experiência, olhando para trás e analisando também o seu presente, acha que foi ou é vítima de preconceito? O que você teria a dizer para as pessoas com Asperger para orientá-las a lidar com isto?

“vítima de preconceito, não. objeto de preconceito. não se deixe vitimar, nem deixe que sintam pena de vc – esse é meu ‘conselho’”

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Marcelo, obrigada em nome de todos os leitores do Salada por ter exposto um pouco de sua história para nos ensinar mais sobre a síndrome de Asperger e o jeito de ser do Aspie.

Parabéns pelo seu esforço, por sua teimosia e pelo seu sucesso acadêmico!

 
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Publicado por em 14/07/2010 em Neurologia, Psiquiatria, Salada Entrevista

 

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