
por Meire Gomes
Artigo publicado no livro ‘Pediatria Radical’, Ed. Senac (DF).
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O abuso sexual na infância pode deixar marcas emocionais profundas na criança, como distúrbios psicossexuais, depressão e tendência ao suicídio. Na maioria dos casos não há lesões físicas aparentes e em 87% das ocorrências o perpetrador é alguém com algum laço familiar, afetivo ou não. Normalmente ele (a) freqüenta livremente a casa e muitas vezes tem a confiança da criança, o que, além de dificultar o diagnóstico, nos dá uma dimensão irreal do número de casos que acontecem todos os dias.
Pesquisas revelam que a maior parte dos abusadores é formada por adultos simpáticos e gentis; uma pequena parcela tem o perfil clássico do homem solitário e excêntrico. Cerca de 66% dos abusadores alegam ter sofrido abuso na infância. Não é certa a relação causa-efeito, pois dada a freqüência elevada de abuso e o fato de 44% não ter sofrido abuso na infância, há a possibilidade do antecedente ser apenas coincidência estatística.
A maior parte dos abusos não envolve violência física nem começa como um ato de estupro, sendo no geral, precedidos de atenção e “afeição“. O pedófilo manipula sutilmente a criança e depois faz um pacto de silêncio, e através de ameaças finda por convencer a criança de que ela é a culpada. A realidade da criança é distorcida, dificultando que desenvolva saudavelmente sua sexualidade, na medida que confunde sexo com afeto, e divide-se entre a impressão de ser agredida e o prazer eventualmente gerado pelo contato. O abuso pode ocorrer sem contato físico, como o voyeurismo, a criação de imagens fotográficas para exibição com propósitos pedófilos, o estímulo à nudez da criança e sua submissão a presenciar atos sexuais ou imagens pornográficas.
Estima-se que uma entre quatro meninas e um entre seis meninos sejam vítimas de algum tipo de abuso sexual durante sua infância. O abuso sexual ocorre em todas as culturas e classes sociais, não só em famílias desestruturadas; considera-se portanto, que toda criança está sob risco de sofrer abuso. As estatísticas mostram que a faixa etária de maior risco situa-se entre 5 e 12 anos. Cerca de 75 a 80% dos abusadores são do sexo masculino, estando um terço deles na adolescência (irmãos, primos, amigos da família).
Muitas vezes a família se nega a aceitar essa possibilidade por motivos claros, como desejo de que aquilo não esteja ocorrendo, medo de acusar o abusador, vergonha ou temor em desequilibrar os laços da família, ou simplesmente por não acreditar que algo tão hediondo possa estar ocorrendo dentro da sua própria casa.
= Mas como desconfiar de que a criança esteja sofrendo abuso sexual?
1. Analisando o abusador:
- Quando o brincar com a criança provoca desconforto em outros adultos
- Procuram motivos para isolarem-se com a criança (passeios, por exemplo)
- Insistência em afeto físico
- Interesse excessivo em desenvolvimento sexual
- Não gostam de ser interrompidos quando estão com a criança
- Oferecem-se regularmente para tomar conta da criança
- Compram presentes com freqüência ou oferecem dinheiro sem motivo aparente
- Escolhem uma criança em particular para faze-la sentir-se especial
2. Analisando a criança:
Como dissemos anteriormente, em muitos casos não existem marcas físicas, pois não há violência. Quando existem marcas como hematomas, sangramento vaginal e sinais de doenças sexualmente transmissíveis, o diagnóstico pode ser sugerido com menos dificuldade. Quando a criança relatar algo que sugira manipulação genital por parte de outra pessoa, vamos considerar seu depoimento. Dificilmente a criança é capaz de criar uma história de abuso. Consideremos mesmo que essa pessoa seja um primo mais velho, ou um tio, ou o padrasto ou um vizinho. Outro ponto importante é o comportamento sexualizado, como o que ocorre com a criança que não tem hábito de beijar a boca dos pais e começa a desejar beijá-los dessa forma, ou como o que ocorre com a criança que já não mama ao seio materno e passa a procurar a mãe ou outras mulheres para sugar ao seio.
Dependendo da ação do abusador, a criança pode ter dificuldades de aprendizado, mudanças súbitas de comportamento, pesadelos, insônia, fobias, compulsões, pode tentar fugir de casa, chorar muito ao ver adultos ou se isolar de outras crianças. Fissuras vaginais ou anais que não cicatrizam e leucorréia (corrimento) podem fazer parte do quadro encontrado. As conseqüências tardias são igualmente graves, incluindo a marginalização e os distúrbios de afetividade.
Observar se a criança:
- tem comportamento sexual inadequado com brinquedos e objetos;
- recebe presentes e dinheiro sem aparente motivo;
- muda seus hábitos alimentares ou apresenta pesadelos e distúrbios na qualidade do sono;
- tem comportamento imaturo, como imitar voz de bebê ou voltar a fazer xixi na cama;
- isola-se e fica retraída, cheia de “segredos”;
- mostra medos inexplicáveis ou se torna ansiosa quando os pais não estão por perto;
- tem ataques de raiva;
- apresenta sinais físicos em região genital.
As marcas do abuso sexual e da violência contra a criança, como muito bem citado pela Sociedade de Pediatria, não ficam só na criança, ficam na sociedade.
= Como agir frente a uma suspeita de Abuso Sexual?
O SOS criança mantém uma linha direta para denúncia e orientação que funciona 24 horas por dia, fornecendo orientação às famílias e profissionais da área de saúde. A ligação é gratuita, inclusive via telefone celular. Mesmo quando não existe uma certeza ou quando não há violador identificável, a denúncia deve ser realizada via Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente de sua cidade.
Leitura técnica recomendada:
“Guia de atuação frente a maus-tratos na Infância e na Adolescência”, publicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria em parceria com a Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, em Março de 2001.
“Abuso sexual em crianças – Fortalecendo pais e professores para proteger crianças de abusos sexuais”, Christiane Sanderson, Editora M.Books, 2005.
* Médica
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Créditos:
Imagem capturada de http://www.tellinitlikeitis.net/wp-content/uploads/end-sexual-abuse-of-children.jpg

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