Por Meire Gomes
Dedicado ao meu amigo Assis.
Deparo-me diariamente com situações extremamente angustiantes em meu trabalho, como doenças graves e irreversíveis, mutilações, depressões com psicose, esquizofrenia, toda sorte de risco social, e as expressões mais genuínas de tristeza e sofrimento. A vivência de luto é uma dessas situações.
Como leciona a sabedoria popular, a dor de cada um, é a dor de cada um. Ninguém tem meios de entender a magnitude da dor do outro, ou a plena capacidade de se colocar em seu lugar, pois cada pessoa é um exemplar único. A vivência do luto varia muito de pessoa para pessoa, muitas vezes quem aparenta estar bem, pode estar sofrendo muito mais do que quem chora sem parar. O choro desesperado parece ser mais a expressão dos arrependimentos daquele que ficou do que pela perda da pessoa em si. E nenhum de nós pode prever como nos comportaremos quando alguém querido se for.
A dor do luto dilue-se com o tempo; ainda que possa nunca perecer, se a pessoa tem uma vivência normal e não tem predisposições psiquiátricas, em algum momento ela encontra paz, simplesmente aceita. O problema é quando a pessoa enlutada desenvolve um transtorno de adaptação e até condições piores, como síndrome do pânico ou depressão reativa grave.
Os transtornos de vivência de luto precisam ser prevenidos; muito embora uma possível pré-vivência visando um preparo antes do fato ocorrer não seja uma experiência real e eu não tenha a menor ideia de que impacto isso possa ter, sabemos que um apoio de reforço positivo à pessoa enlutada em suas fases iniciais pode ter algum efeito preventivo.
O que seria a tal pré-vivência? Imaginar a morte de quem nutrimos um afeto especial e abstrair suas consequências parece um exercício mórbido, mas ao mesmo tempo penso ser uma forma de amadurecimento, uma prévia para o inexorável. A ânsia do homem pela imortalidade tem um efeito colateral muito ruim: não pensamos na morte, ela parece sempre distante, coisa destinada aos outros, algo tão óbvio que não merece ser pensada. É um erro, penso. Após a morte precoce do meu pai, fator altamente traumatizante para toda minha família, eu fui invadida por um sentimento de humildade muito grande, de pequenez. Somos idênticos a quaisquer outros animais, tão mortais quanto eles; parafraseando Carl Sagan, somos apenas habitantes de um pálido ponto azul. A morte, tão repelida, nos encontrará a qualquer momento. Não adianta espernear, não adianta se revoltar. Eu já pré-vivenciei a morte de todas as pessoas que eu amo.
Pré-vivencie: relaxe e pense que seu pai, sua mãe, seu companheiro, sua companheira, um de seus filhos ou seu melhor amigo morreu. Chore se sentir necessidade. Descubra o que você, hoje, se arrependeria por não ter feito.
Hoje pela manhã liguei para minha mãe apenas para dizer que a amo, e que o abraço dela é quente, que sinto saudades. Essa pode ser a última ligação que faço para ela: tanto eu quanto ela poderemos morrer hoje, ou amanhã. Se ela morrer hoje, não há nada que eu gostaria de ter feito que não fiz, nenhum perdão a pedir e a certeza plena de que o menos que ela deseja é o meu sofrimento. Deslumbrar-se diante de nossa pequenez é, paradoxalmente, valorizar a vida.
Apesar de não sermos nada, de sermos mortais e susceptíveis a seres tão minúsculos quanto vírus, somos os sobreviventes de todas as barreiras evolutivas da pré-história até os dias de hoje, somos um bilhete premiado: nosso nascimento só foi possível porque houve o encontro de um espermatozóide específico com um óvulo específico e que já começou com alta possibilidade de ser abortado espontaneamente. Juntar isso à aceitação de que a vida é finita, é libertador. De repente você percebe que é forte o suficiente para não necessitar de fantasias: você enfrentou a realidade. E o bônus é perceber que não vale a pena perder o precioso tempo desse bilhete premiado com picuinhas, com rancor.
Pedir perdão e perdoar devem fazer parte da nossa rotina de vida: ninguém que viveu tempo suficiente para chegar à idade adulta deixou de cometer um erro ou foi vítima do erro de alguém. Perdoar é uma ação tão nobre que é relacionada aos deuses na maior parte dos mitos religiosos. Mas como o arrependimento, a empatia, a solidariedade e o altruísmo, perdoar é um impulso humano que foi selecionado pela nossa espécie. No fundo, todos queremos paz, por isso está na minoria das pessoas a agressividade, os sentimentos de vingança; se todos nós fossemos intrinsecamente vingativos e do tipo que guarda mágoas por décadas e não tem capacidade de perdoar, provavelmente nossa espécie já teria se extinguido. Por isso, penso, que o sofrimento da pessoa que fica muitas vezes é maior pelos arrependimentos das desculpas não pedidas e dos perdões não concedidos do que a saudade. Pense nisso.
Se acha doloroso um enfrentamento prévio da morte das pessoas que você ama e prefere não pensar nisso, proponho outro exercício:
Se você fosse informado de que vai morrer amanhã, o que faria hoje, além de largar imediatamente a leitura desse texto?
Um bom dia a todos, e obrigada pelas muitas visitas.
Meire

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[...] esferas da nossa vida a todo tempo. Precisamos entender que os problemas acontecem para todos, entes queridos morrem, pessoas se separam, temos problemas financeiros, problemas domésticos e no trabalho ou conflitos [...]