Autor: Meire Gomes *

JMS, 31 anos, costumava ir à praia com sua família, para quebrar a rotina do ‘casa e trabalho’ conferida por dois empregos. Mas desde outubro de 2008, após descobrir que a hemodiálise atualmente é sua única alternativa de vida, está na lista de transplantes a espera de um doador cadáver. As sessões de hemodiálise duram em média 4 horas, 3 vezes por semana, e o deixam com muita fadiga: ele perdeu a disposição para ver o mar.
.
.
Como o JMS, algo entre 32 a 36.000 pessoas no Brasil têm Insuficiência Renal Crônica, e destas, mesmo contando com as felizardas que conseguem um doador vivo entre os familiares, no máximo 10% das pessoas chegam a ser submetidas a um transplante renal. Percebi a rejeição que muitas pessoas apresentam para doar seus órgãos quando eu era estudante do ensino médio no saudoso Colégio Nossa Senhora das Neves e resolvi fazer uma campanha de Doação de Córneas como parte de um trabalho para a Feira de Ciências. Os mesmos argumentos contrários naquela época são usados hoje: os maiores medos das pessoas é que tenham seus órgãos extraídos quando ainda estão vivas ou que sua morte seja apressada para viabilizar os transplantes.

Propus o tema ‘Quando você morrer, seus órgãos serão doados?’ numa enquete em uma das maiores comunidades virtuais de Medicina em língua portuguesa para ilustrar esse pequeno artigo. Os dados retirados da enquete até as 18:00h de hoje são mais animadores do que as estatísticas nacionais, mas ainda assim, 23% das pessoas que responderam não expressaria para seus familiares um desejo de que seus órgãos e tecidos fossem doados caso estivesse vivendo hoje os últimos momentos de sua vida.

Retirando os 7% das pessoas que optaram deixar a decisão para seus familiares como casos potencialmente favoráveis no futuro, ainda temos 16% de votos formalmente contrários à doação. Uma parte destes se declara não doador por questões religiosas e outra por acreditar que sua vida será abreviada pelos médicos. Um pouco mais da metade das pessoas contrárias a doação tem motivações que preferiu não justificar.

Para termos uma idéia do que uma pequena enquete mesmo animadora significaria em termos populacionais, de cada 10.000 pessoas, 2.300 não seriam doadoras de órgãos atualmente por não expressarem esse desejo às suas famílias, mesmo que estivessem vivendo as últimas horas de sua vida. Dentre estas, 1.600 pessoas seriam declaradamente contrárias à doação. Considerando a cidade de Natal – sem contabilizar a área metropolitana -, há qualquer coisa entre de 120 e 170.000 não doadores de tecidos e órgãos só na capital do nosso estado.

Não ser doador é direito de todo cidadão brasileiro, mas é importante esclarecermos os mitos que fazem com que pessoas sejam contrárias a doação para evitar que deixemos de salvar vidas ou beneficiar pessoas por mero desconhecimento. Um dos medos que pode estar embutido naqueles que não expressaram os motivos de sua opinião contrária pode ter alguma relação com os mesmos motivos que originaram a lenda urbana que reza que você poderá ser sedado em algum bar, e acordará retalhado e sem os rins numa banheira com gelo. Um transplante de órgãos, entretanto, envolve necessariamente ações muito rápidas em um serviço médico de ponta com inúmeros profissionais e jamais poderia ser realizado num fundo de quintal a partir de um órgão removido dentro de um ambiente contaminado e acondicionado num isoporzinho ou numa maletinha térmica. Essa lenda apoiada pelo desconhecimento da complexidadade do transplante de órgãos reforça o medo de ser vítima de tráfico caso sua posição favorável à doação seja notória.

Nossa Legislação permite dois tipos de doação de órgãos: a partir de um doador vivo ou a partir de um doador falecido (doador cadáver). Para você ser um doador vivo de um órgão como o rim, deve ter ser cônjuge ou ter um laço familiar de até quarto grau com o receptor e não sofrer prejuízos com a doação – não é permitido por exemplo, que você sacrifique a sua vida por outra pessoa. Para ser doador cadáver, você precisa apenas expressar isso para seu cônjuge ou sua família até segundo grau de parentesco, que se responsabilizarão por assinar um termo futuramente, cumprindo assim a sua vontade. Para ser doador, portanto, não é inicialmente necessária nenhuma formalidade, apenas a declaração favorável junto aos seus, ou a decisão dos familiares em momento oportuno, caso você não tenha manifestado ser contrário à doação ou se você for menor de idade.

= Então vamos entender um pouco mais essas opiniões contrárias à doação:

1. Não sou doador por motivos religiosos

Até o momento não existe nenhuma posição oficial de qualquer religião contra a doação de órgãos e tecidos.

Os Testemunhas de Jeová, que não se pronunciam atualmente contra nem a favor, deixam a critério da consciência de seus adeptos, porque no passado foram oficialmente contrários a doação por considerarem um ato de canibalismo. Se não houver necessidade de doação de sangue, os TJ, com exceções, não são contrários ao transplante de órgãos.

Alguns espíritas acreditam que a remoção de órgãos cause danos ao perispírito e há pessoas que crêem que acordarão cegas no mundo espiritual caso doem suas córneas. Se sua motivação contrária à doação for somente religiosa, discuta a questão em sua Igreja ou Centro, e verá que todas as religiões consideram a doação um ato de amor.

2. Não sou doador porque vão evitar me salvar para remover meus órgãos

Esse medo faz parte da crença em teorias conspiratórias. Se a motivação é salvar vidas, não há sentido algum em médicos causarem uma morte. As equipes que trabalham nos pronto-socorros ou que atendem os pacientes em estado crítico não são formadas pelas mesmas pessoas que tratam dos transplantes e há envolvimento de muitas pessoas. Nem a morte encefálica é declarada por uma pessoa só, o trabalho todo é em equipe. Só após o diagnóstico de morte encefálica, cuidadosamente estabelecido por critérios do Conselho Federal de Medicina, a família permitirá ou não a retirada de um ou mais órgãos e tecidos para doação.

3. Eu já estou muito velho para ser doador, e estou doente …

Pessoas de qualquer idade podem ser doadoras de órgãos e tecidos, inclusive pessoas com várias condições médicas, como por exemplo câncer primário do cérebro. Quem irá definir se seus órgãos estão adequados para salvar a vida ou melhorar a qualidade de vida de outra pessoa é a equipe médica. Portanto, ter idade avançada ou ser portador de alguma doença não é motivo para ser contrário à doação. Você pode ter a idade avançada mas ter órgãos em muito melhor estado do que um adolescente.

Se você ainda não decidiu o que vai comunicar à sua família e continua na dúvida mesmo tendo lido até aqui, visite o site da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos . Tanto a decisão favorável como a contrária merecem ser conscientes, e repassadas para a família tão logo seja definida.

* Médica